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O racismo

 

Sinto que o racismo é uma questão de cultura e não falta dela. E quanto mais me debruço sem cair sobre a situação, mais sinto que estou mais perto da verdade e da razão. Passo a explicar: o racismo é algo que nos é incutido desde pequenos e que está sempre à nossa volta. Portanto, não admira que quando crescemos existe sempre uma grande probabilidade de a nossa mãe nos encontrar vestidos com um cone pontiagudo enfiado na cabeça e uma veste branca com “KKK” bordados pela nossa avó.

– O que estás a fazer com o tubo de creme de pasteleiro enfiado na cabeça!?

– Mãezinha, é a nossa cultura…

 

 

Qual não é o pai que não deixa o filho dormir de luz acesa só porque ele tem medo do escuro? Em vez de o ensinar que são pessoas como nós, os brancos, mas que provavelmente apanharam um pouco mais de sol. Não! Ainda diz que o Papão pode aparecer. Presumimos então que o Papão e o escuro andam de mãos dadas. No entanto é quando o escuro desaparece, e está um sol do caraças que ficamos vermelhos-lagosta e só depois a nossa tia se lembra que nos tinha que por o creme branco para nos proteger do amarelo. Já dizia a minha prima sobre os cortinados, «Não gosto do amarelo!». Estranho é que as mães dos pretos, apesar de cuidadosas e atentas quanto à questão do cancro da pele, devem cometer o pequeno erro de pôr aos filhos creme branco e não o apropriado para as propriedades da sua pele. Só presumo isso porque depois há uns que ficam azuis. Por isso já sabem, quando um bolo fica muito tempo no forno, não fica queimado, se não vinha azul. Fica torrado. Felizmente para todas as cores, aproxima-se o Inverno para protegermos um pouco mais a nossa pele. Contudo é no Inverno que se dá um aumento do racismo, pois os dias ficam mais pequenos e fica escuro mais cedo.

 

 

Para realçar que esta questão do racismo nos aparece em cada esquina e nem sempre para nos roubar, lembro-me que no outro dia o primo me convidou para ir ao casino. Primeiro disse que era um tiro no escuro, mas que podíamos ganhar muito dinheiro com isso, e depois passou a noite inteira ora «aposta no preto», ora «aposta no vermelho». Mas ele disse mais vezes «aposta no preto», eu lembro-me. Acho que ele apesar de querer dar um tiro no escuro sabe bem que eles são melhores atletas tanto na velocidade como no fundo e meio fundo do atletismo, e por isso mais bem preparados para fugir e/ou desviar-se das balas do que um branco que ficou muito tempo ao sol. Esqueçam a «aposta no vermelho», mesmo que o nome dele seja “Neo”. O “Matrix” é um filme!

 

Como vêm, em todo lado aparecem conotações racistas e nós não as podemos evitar. Estamos a crescer com elas. Mas será que os nossos filhos também irão ser vitimas da cultura da nossa sociedade? Talvez não. Às vezes, até são as gerações passadas que nos dão lições de vida para o presente e o futuro. Por exemplo na passada semana, fui buscar o meu avô ao banco do jardim onde ele costuma jogar “Sueca” com os amigos. Entre a penúltima e última vaza, ele deve ter-me visto a falar com uma amiga, uma mulata de Cabo Verde, atleta de heptatlo, cor de côco tropical quando em queda, com uns olhos verde-coral, uns caracóis longos e uns lábios carnudos.

– Netinho, estavas na conversa com uma linda amiga colorida.

– Não avô, é só amiga. Ainda não mantemos qualquer tipo de relacionamento sexual periódica. Repito, ainda!

– Sim, foi o que eu disse. O que estás à espera para praticares regularmente um pouco de discriminação positiva?

 

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